CSS Drop Down Menu by PureCSSMenu.com



Peça Anexa


Personagens:
Torturado
Torturador 1
Torturador 2
Mulher (mãe)
Moça (filha)
Rapaz (namorado da moça)
 

Cenário
 Uma mistura de quarto e sala: Ao fundo um sofá branco. No lado esquerdo do palco uma cômoda (toucador) com um espelho. No lado direito do palco um guarda-roupa por onde entram e saem alguns dos personagens. No centro do palco uma cadeira com um homem nu (em farrapos) sangrando e com as mãos amarradas à frente.

Inicio:
Um rapaz e uma moça sentados sobre a cômoda e beijando-se. No sofá, dois homens de uniforme ou terno-e-gravata (os torturadores) estão sentados à esquerda e à direita de uma mulher de vestido escuro e jóias (muitas) que brilham bastante.

Luz forte no personagem da cadeira (o torturado)

Torturado (Fala como um menino arrependido)
Nao sou um subversivo. Não sou um revoltado. Apenas queria saber a verdade.
Ninguem teve culpa. Fui torturado só porque mereci. Eu atrapalhei a ordem das coisas.
O mundo progride lentamente. Se eu tentar mudar essa lentidão, vou atrapalhar a ordem das coisas. Tudo. Eu mereço ser punido. Nao sou uma vítima. Sou o próprio culpado.
Se eu nao quisesse ter sido diferente jamais teria sido torturado.
Os torturadores nao tiveram culpa. Eram apenas instrumentos. Se eu tivesse falado logo...
Tudo faz parte de tudo.

(Luz forte no torturador 1, que se levanta)

Torturador 1
Nao sou um torturador. Sempre pensei: "Sou um torturador!". Mas não sou.
Já torturei muita gente. Já matei muita gente. Eu nao queria matá-los. Eles demoravam para dizer aquilo que a gente queria ouvir. A culpa era deles mesmos
Esses subversivos nao nos respeitavam nada. Insistiam em ficar calados. Se tivessem a sensatez de falar logo...
Eu nao sou um torturador. Nem sei por que eu fazia aquilo. Diziam que era necessário. Eu apenas obedecia ordens. Se eu não obedecesse as ordens, o torturado seria eu, entendem?

(Luz forte no torturador 2 que levanta também)

Torturador 2
Se não existissem subversivos, nao haveria torturados. Se todos fossem bons, maus como eu nao seriam necessários. Eles existem como controle da sociedade para proteger os inocentes.
A mulher das jóias é quem queria punir os culpados. Eu nao era o torturador. Eu só fazia o que era certo.
Também fui uma vítima. Alguém controlado. Um instrumento.
Eu nada teria feito se nada tivessem me mandado fazer.

 (Luz baixa geral. Luz forte no torturado e nos jovens na cômoda)

Torturado (Fala desesperadamente)
Socorro!

Rapaz
Acho que ouvi tua mãe te chamar.

Moça (Arruma-se no espelho)
Vou ver o que é.

 Ela sai andando até a cadeira do torturado. Olha ele, da uma volta na cadeira dele e vai para o fundo do palco, onde está o sofá. Dirige a palavra a sua mãe.

Moça
Chamou, mãe?

Mulher
Não (Sacode a cabeça negativamente)

Torturado
Socorro! Alguém me ajude!

Os torturadores dirigem-se até o torturado. Luz geral alta.

Torturador 1
Com licença!

Torturador 2
Com licença! (Imita o jeito do  outro)

Estão lado a lado do torturado.

Torturador 1
Coitadinho! (Com escárnio)

Torturador 2
Eu já disse que não adianta gritar!

(O torturador 2 passa a mão na cabeça do torturado )

 A mulher levanta-se do sofá, chega perto do torturado, olha-o com cara de nojo e sai em direção ao guarda-roupa. Os dois torturadores deixam o torturado e correm para acompanhar a dama. Mostram-se gentis e submissos a ela. A moça aproxima-se do rapaz na cômoda, olhando para o torturado com pena.

Moça (Fala para o rapaz)
Nao gosto quando minha mãe conversa com aqueles homens.

Rapaz
Ela conversa com quem quiser. (Pega a moça pela cintura e beijam-se)

Moça (Afasta o rapaz com os braços)
Ela é minha mãe!

Uma voz atrás das cortinas fala aos jovens

Voz
Tomem cuidado! Aqueles dois que acompanham vossa mãe são perigosos. São muito perigosos.

Rapaz
Vamos dar uma volta?

Moça
Vamos!

Voz (Continua falando sem ser ouvida)
Eles são maus. Eles são torturadores. Eles matam por nós.

 Os jovens beijam-se mais uma vez e saem através do guarda-roupa.

 (Luz baixa. Foco no torturado)

Torturado
Por favor! Alguém me salve! Eu...

 (Luz aumenta. Torturadores voltam pelo guarda-roupa e vão até o torturado)

Torturador 1
Cala essa boca, animal! Viu no que deu tua valentia? Quiseste lutar contra a sociedade, seu estúpido!

Torturador 2 (Pega um pedaço de pau)
Ele fez isso?

Torturador 1
Não sei. (Vira-se para o torturado)
Confesse!

Torturador 2 (Bate com o pau na cadeira)

Torturador 1
Queria desorganizar a organização e desestabilizar a estabilidade! Queria desordenar a ordem! Desestruturar as estruturas!

Torturador 2
Confesse! (Bate com o pau na cadeira)

Torturado
Eu... Eu nao fiz nada!

Torturador 2 (Pára um pouco de bater)
Cansei. Por que você não confessa logo? (Vira-se para o outro)
Quer bater um pouco?

Torturador 1 (Faz una cara de espanto e nojo)
Eu!? Eu nao! Eu nunca faço mal a ninguem!

Torturador 2
Nao sabe como e bom!
 (Bate com muita força. O torturado desmaia)

Torturador 1
Vamos embora. Você bateu demais. Depois a gente volta.

Torturador 2 (Está decepcionado)
Ô, bosta!

Os dois torturadores saem por onde entraram. Entra uma moça com um cachorrinho que vai até o torturado.

Moça do cachorrinho
Coitado! Deve estar precisando de ajuda. (Sacode e acorda o torturado)

Torturado
Por favor! Me salve! (Mostra a mão amarrada na outra mão)

Moça do cachorrinho (Recuando)
Eu vou chamar a polícia!

Torturado
Não! Espere! A polícia não!

A moça do cachorrinho sai correndo enquanto entram os torturadores e a mulher das jóias. Os torturadores sentam no sofá. A mulher pega o pau e ameaça bater no torturado. A seguir pára e começa a discursar.
 

Mulher
Você é una praga! Vem aqui e ameaça nossas vidas. Ameaça nossa felicidade. Com que direito? Você é apenas uma minoria! Nada! Uma simples minoria nada! Vejam esses pobres homens! Veja o trabalho que tiveram com você! Você! Você!

Os homens levantam e abrem a porta e a mulher sai por ela. Os homens a seguem.

Mulher (coloca a cabeça de volta e grita)
Sua puta!



Copyright Victor Sant'Anna 2002